Existencialidades

Marcas e lembranças que restaram de ter deixado te sentir tão forte assim.

A Gota d’Água novembro 20, 2009

Filed under: chuvisco — Isa @ 1:00 am

Eu te dei tudo que eu tinha no primeiro momento que você sorriu pra mim; desse ponto em diante fui te dando tudo que nunca tive.

Até que não me sobrou nada, nem passado, nem presente, nem futuro, nem escrita, nem sentimento, nada. Nem você.

Que eu só consegui agradar nos tempos fáceis, de consolo, de ajuda, de peripécias; mas nunca nas mínimas discordâncias, a cada menor conflito – com os outros, ou melhor, com a outra que, no final, mesmo com tudo que te dei, é a única bagagem que você trouxe, teve e vai levar da nossa história: as vezes que te consolei por ela, as vezes que te abracei por ela, as vezes, até, que por ela te beijei. No nosso filme, agora ou no futuro próximo em que rolarem os créditos, aparecerá o nome dela primeiro, seguido pelo seu. Mais àbaixo estarei eu, como garota #1, quiçás #2, quem sabe?

Definitivamente não eu. Eu não entendo mais nada, isso eu também dei pra você. Não entendo como por mais que eu tente cuidar de você o tempo todo, e tente por tudo acalmar tuas tempestades, no final sempre te enraivecia. Não, enraivecia não; no final eu nem mesmo te tocava.

“Desculpa; é só isso que eu posso te dizer.”

É sempre assim, né? No final é sempre você com uma palavra e eu com um monólogo. Mas como pode ser só isso se eu te dei todas as minhas palavras, cada um dos meus sentimentos? Entenda, não te quero mal nenhum, eu só queria entender pra onde foi tudo isso se numa desavença ordinária eu percebo que você não guardou nada.

E quanto a isso, que ninguém se engane: eu te amo com todas as forças que já não tenho. Amo, mesmo que não possa dizer que isso é tudo que me resta, pois já virou meu corpo, meu ar, que só não te dei por não ser viável. Se não, daria. Não conta. Nada mais conta e, ainda assim, eu te amo, sim, amo, e não te guardo raiva nenhuma. Mesmo que tudo que eu te diga saia com ares agressivos, não te culpo por nada do que me trouxe até aqui. Você nunca tentou me enganar, e eu percebia tudo muito rápido, mas aceitava qualquer coisa pra estar ao teu lado. Aceitaria ainda, e para sempre, se você não tivesse me falado do mal estar que te causo, ao qual eu fazia vista grossa, mas que agora não tenho mais como negar.

Eu só não sei o que eu faço agora, se cada minuto sem você me é o mesmo que vidas, várias vidas vazias, de nascimentos confusos e mortes solitárias, sem nada no meio. Não sei pra onde vou se tudo que eu vejo é você, é de onde eu tenho que partir.

Fui indagar da lua uma direção, qualquer coisa, mas ela se envergonhou do meu estado e se escondeu. Não é terrível? Nem a lua me sobrou, no mais infeliz dos meus dias só 10% dela estava iluminada e, ainda assim, escondida por nuvens. Não se vê nenhuma estrela no céu pra me apontar que caminho seguir, o que me resta a fazer.

O que me resta quando o ar vira a droga que me consome?

O que me resta se meu corpo, meu próprio organismo, me impele a continuar tragando-a?

Se, por mais que eu tente parar, acabar com tudo, é meu próprio sadismo que me envia mais uma inspiração contaminada, antes mesmo que eu chegue perto de estar longe da desintoxicação?

O que me resta é a morte, mas sem a paz.

É o purgatório, mas sem o conforto da familiar companhia de outros sofredores.

O que me resta tem teu nome e é a ausência absoluta de você;

é o vazio

 

One Response to “A Gota d’Água”

  1. marina Diz:

    levei um susto quando vi que você tinha voltado a escrever. isso é realmente muito bom. isa, esse texto é de agora? bom, queria conversar.
    beijo, neguinha


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