No marasmo de uma terça-feira sedentária das férias, me deparei com um dos meus maiores inimigos. Aquela gaiola abstrata dos meus pensamentos que na mínima chance se apossa de todo o meu ser, me deixando inoperante por várias horas, só pensando, remoendo, repensando. Ele aparece sem avisar, nas noites de tempestade que você tenta dormir, na monotonia de uma tarde fria, numa aula enfadonha. Qualquer situação é válida.
Me vendo presa e percebendo que ficaria naquela gaiolinha maléfica por bastante tempo, comecei a avaliar minha vida nos últimos três anos e pouco; cada fracasso, cada vitória, cada amor que se provou digno ou não. Foram tantas transições.
Eu me lembro do meu primeiro dia no Lycée, quando ingenuamente conheci as pessoas que com o passar do tempo se tornariam minha família, a verdadeira, a que eu escolhi. As pessoas com as quais eu ainda teria muitas brigas, mas feriria o meu orgulho mil e uma vezes para não perdê-las. As pessoas que ainda me fariam derrubar milhões de lágrimas, mas me proporcionariam infinitos sorrisos. As pessoas que me derrubariam, mas me traríam de volta dos poços mais fundos que eu pudesse me encontrar.
O tempo passou e definiu cada uma dessas pessoas na minha vida. Me deu paixões, por pessoas, por coisas, por atos. Por escrever. Me deu alguns ódios e desentendimentos que, espero eu, me fizeram amadurecer.
O tempo me fez cometer erros, alguns graves, me ensinou a dar mais importância àquelas pessoas que estariam sempre do meu lado, e a operar um por um os tumores da minha vida.
O tempo me fez percorrer caminhos errôneos, mas que um dia se tornariam certos por aprendizado.
O tempo cicatrizou cada uma das minhas feridas, mas sempre feriu à faca outro lugar pra compensar o que se acertava.
O tempo foi deixando meus olhos míopes, mas meus pensamentos mais claros; me ensinou a discernir o certo do errado, mesmo que não tenha me ensinado quais eram os certos certos, os certos errados, os errados certos e os errados realmente errados.
O tempo foi me dando autonomia pra administrar como eu quisesse meus sentimentos, meus pensamentos, e até meu próprio tempo, mas me criou limitações, físicas ou mentais.
O tempo destruiu cada uma das minhas ilusões mais preciosas, mas me ensinou a ver o colorido em meio à realidade cinza em putrefação, que no meio de todas as suas imperfeições, tinha a vantagem de, ao menos, ser real.
O tempo me apresentou as artes; escrever, atuar, me deu a imaginação necessária para executá-las, mas me tirou o talento pra desenhar e, muitas vezes, pra expressar os sentimentos mais importantes, que me sufocavam à medida que cresciam na jaula criada por tal incapacidade.
O tempo me apaixonou por homens errados, mas me deu sempre a certeza de que o da vez era o certo e a força mínima necessária para passar ao próximo com a mesma esperança inabalável, da eternidade, da pureza e de tudo aquilo que com o passar dos anos criei tendência a procurar nos mais volúveis braços, até chegar aos mais seguros, os de hoje, os que vão me abraçar pra sempre se depender de mim.
O tempo .. relógio analógico que com seu tiquetaquear irritante e inesgotável tudo muda, tudo cria, impossível de ser parado ou impedido até que se quebre de vez, soterrado por seus próprios filhos e netos, seus segundos, seus minutos, seus dias, suas semanas, seus meses, seus anos, que são como eva para adão, o ser criado de sua costela que levou-lhe à destruição.
Tique.
Taque.
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