(ou ‘obrigada pelo almoço’, ou até ’j'espère que le bonheur puisse faire des grands artistes, sinon je suis foutue’) - essa obra tem muitos títulos alternativos.
Postergamos durante vários minutos - ou horas, eu realmente não sei dizer - qualquer passo, qualquer movimento longo ou brusco que quebrasse o ritmo lento que se estabelecera não apenas em nós, mas em todo o quarto. Tive medo que esse ritmo, ao sair do cômodo, se quebrasse, trouxesse de volta a realidade, as coisas mundanas, a correria. Arriscamos, por fim.
Sem quebras. Percebi como meu medo fora ilógico, sem fundamentos. Não era o quarto que estabelecia aquele ritmo, aquela avidez rústica que de forma tão única e paradoxal coexistia perfeitamente com a preguiça; era você. Não, mais que isso, éramos nós - nossa união.
Levantamos do que tinham sido horas de sonolência, prazer. Paz. Eu diria que se passaram meses enquanto permanecemos imperturbáveis na sua cama, se não fosse a lembrança em permanência do tempo que insistia em nos aguardar com impaciência ao redor da zona de proteção imaginária que criáramos, acompanhado por meus sentidos e qualquer vestígio de responsabilidade, de juízo que já houvera em meu ser.
Não levamos ao próximo cômodo nada além de nós mesmos. Me diverti ao perceber quão metafórico era aquilo tudo. Nossas roupas, esquecidas no chão do outro quarto, não eram mais meras peças de vestuário; elas representavam tudo que era rotina, tudo que era exigido e desagradava, tudo que era limitado ou limitava e estava sendo deixado para trás, em outra dimensão, outro universo. Naquele momento nada disso nos alcançava.
Eu brincava com a água quente que corria pelos seus ombros*, ignorando qualquer frio ou pudor que pudessem assombrar meu corpo descoberto. Meu sorriso aumentava, minha pressão descia, a luz me cegava e tudo que eu via era embaçado, sem contorno, lindo! Absolutamente belo. A água corria pelas minhas costas enquanto você me beijava e eu tentava memorizar cada segundo, dar total atenção a cada sensação, a cada beijo, ao arrepio na pele gerado pelo abraço da água quente com o clima frio, dos nossos corpos nus. Nós estremecíamos, entorpecíamos, delirávamos, apaixonávamos e sentíamos todas as coisas mais perfeitas capazes de serem conjugadas em pretérito imperfeito e, não obstante, sem serem esquecidas no passado. Minha mente viajava, formando mais metáforas, sensível a todos os movimentos, e ao modo como estes se tornavam gradativamente mais lentos, e me encantando com toda aquela idéia de água* que, como eu sabia bem e lembrava com carinho, era o símbolo da pureza por excelência*. Tudo se encaixava, se correspondia e era para o melhor no pior dos mundos, numa fusão de Baudelaire e Voltaire meio às avessas e que, tenho certeza, nenhum dos dois nunca sonhara possível nem em seus sonhos mais loucos, seus delírios mais intensos.
Ao deixar o chuveiro, com o torpor ainda fresco no corpo, o antigo mundo tentava nos acordar, lembrar-nos de sua irremediável existência. Inúmeras chamadas perdidas no celular, pessoas gritando palavras ao telefone, pedindo favores, cobrando coisas. Não o conseguiram por inteiro, porém. O ritmo agilizado típico acabou voltando, obviamente. Era inevitável, e nada melhor para isso do que a realidade dura de uma segunda-feira. Mas as imagens, as lembranças, as sensações .. continuavam só nossas, e as guardávamos como os bens inestimáveis que eram, fora do alcance de outros olhos, de outras mãos.
Guardo para sempre na memória aquele lapso de tempo e espaço, a batida do seu coração a fazer dueto com o meu, suas mão tocando os meus ombros nus, para depois descer aos braços e continuar um caminho improvisado e sem fim definido pelo resto do meu corpo; a ternura e a importância de cada respiração, o barulho da água apenas quebrado pela sua voz grave, reconfortante; a certeza da autenticidade daquelas palavras, dos sentimentos, a necessidade voraz, o amor enlouquecido, a urgência em ampliar cada segundo até que o carrasco da realidade transportado por Renault me levasse pra casa ..
Mas levo comigo as imagens nebulosas de vapor.
*nota da autora: essas duas/duas e meia/três passagens marcadas por asteriscos deram origem à todo o texto, que foi editado exatas 7 vezes, e que teve palavras acrescentadas em cada uma das edições.
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Minha garotinha cresceu.
E ficou ainda mais talentosa… Que bom descobrir isso aqui. Te amo, desculpe sumir de novo da tua vida.
OBRIGADO PELO ALMOÇO?
QUE FOI, FICOU SEM DINHEIRO OU…?
ai meu deus.