Hoje eu fui num enterro. Foi um dia engraçado.
Na escola, eu esqueci de levar autorização escrita para sair mais cedo para chegar a tempo do funeral, às 2 horas, em Botafogo, e minha diretora me explicou como eu fugir da escola “sem o conhecimento dela” ou dos inspetores que guardavam a saída.
Logo, “fugi”, com mais outras três amigas (que por serem pessoas normais tinham suas devidas autorizações escritas), passei na casa de uma amiga, troquei de roupa e fui.
Falemos um pouco sobre a falecida. Marcia Schmidt tinha pouco menos de 40 anos, acho, e nesse sábado à noite se matou com gaz em sua residência no Leme, enquanto sua filha e as coleguinhas se matavam de maneira mais lenta e indireta em uma festa inconseqüente em Laranjeiras. Marcia deixou uma filha semi-desequilibrada, um ex marido otimista, porém melancólico, uma mãe agora desesperada e um irmão que a amava muito. Ela, como todas as pessoas na Terra, tinha seus problemas, claro. Os dela talvez piores que o da maioria, de fato.
No seu enterro, eu, como a pessoa fraca que sou, fiquei chocada. Para mim, nada daquilo parecia verdadeiro. No caixão, aquela mulher tão animada que eu já tinha visto uma ou duas vezes estava deitada, imóvel, inteiramente maquiada e reluzente ..
Como uma boneca.
Sua filha chorava, sua mãe gritava e se descabelava, seu irmão desmaiava, por algum motivo que me parecia ilógico, ela não levantava nunca. Eu olhava toda aquela cena desesperada e tudo que eu podia me perguntar era como aquela mulherconseguia ouvir tanta dor no ar e não se levantar, ou ao menos se mexer, para dar qualquer gesto de consolo que fosse para seus entes queridos.
O enterro passou, e eu continuei lá estática, sem entender. Minhas amigas começaram a ficar preocupadas com minha cara chocada, me mandaram beber água, respirar fundo, e outras coisas às quais não dei atenção; eu estava catatônica. Acabada a missa, levamos o caixão ao seu devido buraco. Porque não há outra palavra pra descrever o lugar onde foi colocado; aquilo era, simplesmente, um buraco na parede.
Flores foram jogadas e, uma vez fechado o buraco, as pessoas começaram a voltar para prestar uma última homenagem à família agora inconsolável e irem para suas respectivas casas. Ficamos para trás apenas eu, minha amiga Nathalie, e meu suposto ‘um-dos-meus-melhores-amigos-no-mundo’ Pedro, com quem eu briguei essa semana por um motivo estúpido.
A ficha caiu.
Junto com lágrimas desesperadas minhas. Nessa hora, enquanto eu me acabava em lágrimas de tristeza - por imaginar que poderia ser minha mãe - e de raiva - por não entender como essa mulher deixou a família dela de forma tão repentina e cruel - um peito tomou todo meu campo de visão e fui tomada num abraço. Um abraço meio tímido no começo, mas que aumentou de intensidade junto com as minhas lágrimas. Naquele momento, por mais brega que isso possa parecer, nem eu nem o Pedro nos importamos, ou sequer lembramos, da nossa briga; ela era irrelevante na escala atual.
Agora, vocês talvez estejam se perguntando, será que eu e o Pedro continuamos brigados?
Provavelmente sim. Mas isso não importa. Porque hoje eu percebi que não importa como a situação esteja, não importa meu vazio existencial de merda ou minhas pequenas adolescências; eu tenho uma mãe, um pai, um namorado, amigos que se importam comigo e realmente têm medo que eu desmaie num cemitério, tenho dinheiro e uma boa escola.
Não interessa se minha mãe é meio louca, meu pai muito chato e irritante, (jaz aqui o espaço no qual eu deveria fazer críticas ao meu namorado, mas não consegui pensar em nada), amigos inconseqüentes ou estranhos, se meu dinheiro nem sempre dá pra tudo ou se minha escola algumas vezes me tira do sério.
Eu decidi, ou melhor, eu notei que estou viva, poxa! E tenho urgência em estar, como já dizia Dead Fish.
E acaba-se o vazio existencial, de uma vez por todas.
E apesar de ainda me parecer que funerais são coisas muito injustas e tristes, tenho que aceitar, na minha cabecinha pequena e sensível, que eles serão necessários e que, até o dia do meu próprio, eu ainda terei muitos choques catatônicos seguidos por lágrimas desesperadas.
Eu só espero sempre ter um peito pra me acolher.
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