Texto respondido (da vez): http://ygoloevol.wordpress.com/2008/05/14/resposta-a-resposta/
Apesar de saber que você deve visualizar o meu ‘quarto’ com os meus ‘móveis’ tão bem quanto eu, esse texto perderia metade de sua graça sem a devida descrição.
Como você sabe bem, no meu quarto, além de muitas prateleiras, mesas e cadeiras abracadabrantes se encontra uma pratileira quase constantemente presente e com mudanças ocasionais; é, exatamente, a tal prateleira rosa e cheia - lotada - de desenhos.
Todas as prateleiras que você constrói no seu quarto, além de representarem uma parte de você, sustentam muitas das coisas que te definem.
Cada um apóia em cada prateleira a parte de si que a ela cabe. Uma coisa que eu admiro muito em você, é a maneira que você se divide em várias prateleiras interessantes, colocando cada pedacinho minuciosamente balanceado no seu devido canto, de forma organizada, ponderada. Seu quarto é um lugar que eu nunca me canso de bisbilhotar, seja furtivamente, por uma brecha na porta, ou abertamente, vasculhando armários, virando gavetas e explorando parte por parte, pecinha por pecinha, nesses dois anos e pouco desde que encontrei a sua ‘porta’ lotada de posteres interessantes e - nem tão - convidativos. De tanto mexer, tenho certeza, acabei mudando alguns objetos de lugar, ao longo de minha visita prolongada e, conseqüentemente, alterando desde pequenas coisas até alguns móveis um tantinho maiores e mais significativos. Por isso seu quarto nunca fica desinteressante, Sops. Eu sempre acabo descobrindo partes novas, áreas inexploradas. E, mesmo quando refaço meus passos e volto para algum canto que eu já havia passado, ele nunca está exatamente igual.
Já meu quarto .. bom, meu quarto é diferente. Apesar dos vários móveis abracadabrantes já citados, meu quarto tem um defeito inegável e extremamente evidente. Eu não me apóio nesses diversos móveis. É claro que eu largo neles certos objetos que me representam, mas é como se meu corpo em si se apoiasse unicamente naquela nossa tão famosa prateleira cor-de-rosa e cheia de desenhos. Nela eu deito, me esparramo, me viro e me reviro, jogo todo meu peso, minha alma, esperanças nesse único frágil e volúvel apoio de olhos fechados. E eu já caí, você sabe bem, exatamente como você. Caí e me estabaquei sem seguro nenhum, me quebrei toda e, não obstante, quebrei também algumas das coisas que estavam em volta. Mas eu limpei minhas lágrimas - boa parte delas em você - peguei meu durex, meu martelinho e meus pregos e, ofegante, fui reconstruindo de pouco a pouco as coisas quebradas. Trôpega, fui remontando peça por peça e comecei lenta e ponderadamente a me dividir entre elas. No começo, tentei seguir seu exemplo; me dividi em inúmeras pecinhas pois, assim, se algumas quebrassem, o essencial continuaria inteiro. Passei algum tempo sem coragem de tocar nos destroços da estante que um dia fora tão feliz. Olhava para ela, rancorosa, de longe. Mas, lentamente, fui me aproximando. Olhando milímetro por milímetro, tentando descobrir onde havia sido a primeira rachadura que havia levado à todas aquelas ruínas. Perdi tempo considerável tentando achar respostas que nunca viriam, enquanto, sem mesmo eu perceber, minhas feridas se curavam. Também meio que sem notar, fui reconstruindo desajeitadamente a prateleira que me dera tanto conforto, tanta paz, tanta segurança. E antes mesmo de me dar conta, a prateleira estava terminada e lá estava eu, mais uma vez, inteiramente deitada, apoiada sobre ela.
E o mais interessante, é que mesmo com todas essas diferenças, nossos quartos sempre se completam de uma forma estranha, meio disconexa, que acaba sendo essencial para a alma de cada um. E não digo apenas de cada um dos quartos, mas de todos que lá visitam, destinados a fazer suas pequenas modificações e bisbilhotagens, deixar pequenas trilhas, marcas duradouras ou não.
Sendo assim, chego a conclusão que nesses anos juntas criamos uma porta, Sophie. Uma porta meio tosca, que mistura vários coisas diferentes e descombinadas, mas uma porta que tem tanta importância quanto imperfeições; essa porta liga seu quarto ao meu, e, ao contrário das prateleiras e móveis, essa porta eu posso afirmar que é indestrutível.
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