Bilhete de suicídio (temporário)

Hoje, dia 22 de julho de 2008, eu escrevo de meu próprio punho meu bilhete de suicídio ao mundo da literatura. Percebi que não tenho direito a isso tudo aqui. Escrever uma uma tarefa importante. Escrevendo você imortaliza qualquer coisa para todo o sempre. Minha alma é demasiado pequena e meus nervos se encontram em estado de frangalhos inegável. Além do que, sou muito nova, ainda não vivi nada, e continuo com todas as imperfeições, dúvidas e limitações da juventude, que me tornam além de muitas outras coisas, uma pessoa deveras influenciável. Não quero imortalizar palavras imperfeitas, já tem gente demais fazendo isso. Não pretendo escrever mais até ter, se não for possível uma alma maior e nervos mais estáveis, ao menos a maturidade necessária e os pensamentos no lugar.

Tomo essa decisão por ver que, na escala do mundo em que vivemos, onde pessoas queridas adoecem e morrem antes da hora, atentados terroristas são considerados normais e assassinatos são catalogados e transformados em estatística, uma pessoa que se desespera por coisas tão pequenas como eu não deve sair por aí imortalizando coisas. Não é certo, é pior que se iludir, é imortalizar ilusões.

Depois dessa postagem, pretendo apenas postar meu chef d’oeuvre, minha obra de arte, e, depois, partir .. não para sempre, deixo claro, eu não conseguiria .. mas pelo menos até eu realizar que eu tenho uma vida muito boa, com bons amigos, um namorado que me ama, uma família, uma boa escola .. até eu realizar que todo dia acordo do lado certo do capitalismo, quão raro isso é e que enquanto eu ainda tiver roupa pra vestir e comida pra comer eu não tenho motivo de dramatizar tanto assim.

Goodbye for now,

Isa.

Quatro (cinco) meses.

É, o tempo passa rápido e hoje fazem quatro meses que o dia 22 se tornou especial na minha vida. Não só ele, como o 23. Caramba, fazem CINCO meses desde aquele primeiro dia 23, na casa do Alessio ..

Desde o início você se mostrou maduro, sincero, confiável, companheiro e extremamente esforçado, comprometido. Quase exatamente um mês depois, estávamos no Rosas, lembro cada detalhe do pedido, lembro como você tava concentrado, e certo, inabalável. Lembro da seriedade das suas palavras, lembro do meu coração bater mais forte. Nesse dia, eu já te amava. Eu já tinha me entregado, desistido de lutar contra o que já estava forte, mesmo tendo tanto, tanto ainda pra crescer .. eu aceitei. Mas aceitei muito mais que um namorado; aceitei um companheiro, um amigo, um melhor amigo [tito e pedro, vocês ainda continuam sendo tão especiais como sempre foram, ok? :)], um porto seguro. Fiz um contrato de longa data com a maior felicidade de todas: te amar e ser amada em troca, e te ter sempre do meu lado.

Conforme os meses passavam, ah, amor, como meu amor cresceu, como você me fez bem .. mesmo com todos os meus problemas, as minhas inseguranças, as minhas limitações você nunca. nunca! desistiu de mim. Às vezes, quando eu fico te olhando sem falar nada, eu fico imaginando se você sabe o bem que você me faz, o amor que eu sinto, se você faz idéia de quão lindo você é .. e me dá vontade de te dizer tudo isso, mas sempre faltam palavras ..

Eu posso não ser a mais bonita, a mais interessante, a mais engraçada, a mais magra, a mais alta, a mais espirituosa ou a mais positiva, mas deixo claro, mesmo que você já saiba, que não tem nada que eu não faria por você. Eu não conheço limites para te fazer feliz, para agradecer por esses meses de felicidade, pra desculpar minhas mancadas. Eu criei por você um amor incondicional, incomparável.  Daqueles que as mães não consideram saudável, que te deixam mais dependente que qualquer vício, e, o pior de tudo, te fazem não ligar para tudo isso. Não obstante, te fazem achar a melhor coisa do mundo.

Se dependesse apenas de mim, eu largaria tudo, eu abriria mão de todo conforto, todo luxo só pra poder estar sempre ao seu lado. Não apenas em sentimento, pois isso você já tem e sempre terá .. mas pra estar perto, junto. É diferente. Cada noite que eu passo sem você ao meu lado parece simplesmente um disperdício, cada dia que eu não te vejo me parece meio vazio, sem cor. Falta-lhe vida.

De todas as minhas limitações, nenhuma vem em causando tanta angústia quanto a de locomoção. Eu me sinto simplesmente obsoleta por não poder ter estado com você ontem, com a sua mãe tão mal .. quando você em contou do acontecido eu senti um aperto no coração que eu não sentia desde o meu avô. Eu queria poder ter corrido praí e ter dado todo o meu apoio pra você e sua mãe, e simplesmente, mais uma vez, não me foi possível ..

Hoje então .. hoje, que é nosso dia, nossa data especial, eu pensei que fosse compensar todas essas derrotas recentes, que eu passaria o dia todo ao seu lado, como deveria .. não é nada mais que natural, estava tudo tão certo .. mas, novamente, tal como no seu show, no show do Dead Fish e em tantas, tantas outras datas especiais nas quais eu queria estar com você até o final, esse desejo me foi negado de última hora. Se nem hoje as circunstâncias nos ajudaram, realmente fiquei decepcionada, pois quando ajudariam?

Pior para as circunstâncias, pior para todos que forem contra, porque eu não vou desistir de você. Não vou desistir do que é pra sempre. É você que eu amo e é com você que eu vou até o fim, não importa quantos obstáculos apareçam no meu caminho. Você merece todo o esforço, cada batalha. Pois você, e só você, me dá a certeza de que, no final, a guerra estará ganha valerá a pena, pois te terei ao meu lado. É só isso que importa.

Também se dependesse exclusivamente das minhas vontades, nesse aniversário eu te daria um carro, um apartamento, uma piscina de chocolate, um Burger King e qualquer planeta do sistema solar .. mas eu não posso. Fazer o quê, de boas intenções o inferno tá cheio .. para compensar, mais uma vez e mais do que nunca, te dou minhas palavras mais sinceras, meus sentimentos mais intensos; meu coração, do qual você vem cuidando melhor que ninguém.

 

Te amo, meu amor, mais que tudo nesse mundo ..

Quatro meses, ou cinco, e tudo que eu sinto.

Me ensina tudo que te satisfaz
Que eu dou um jeito
Corro atrás
Só pra te ver mais feliz
Só pra te ter mais e mais

Você era um bom amigo
Virou o melhor namorado
Está sempre do meu lado
E é para agradecer

Refrão :
Que no tempo da ilusão
Faço das tripas coração
Pra te amar um pouco mais

Passaram cinco meses de união
Desse seu jeito desastrado
Com meu jeito desligado
Que nos levam à perfeição

Já não sei o que fazer
Para fazer entender
Que desse jeito meio torto
Me entrego pra você

Refrão

Cada momento já passado ao seu lado
Cada riso que foi dado
Cada beijo apaixonado
Cada gesto delicado

Era tudo que eu queria
Quero mais a cada dia
Se tornou essencial
Nada mais que natural

Refrão x2

[solo] - sim, minha música tem um pseudo solo

O tempo passa
Pra passar as estações
Enfraquecer as uniões
Mas nós sabemos muito bem
Está em nossos corações

Nada disso nos afeta
Nossa história já é certa
Quem for contra que agüente
Nada abala o que é pra sempre

Isso tá no coração
Sei que não é ilusão
Eu te quero sempre mais

Isso tá no coração
Sei que não é ilusão
Eu te quero sempre mais

Entenda que no tempo da ilusão
Faço das tripas coração
Pra te amar um pouco mais

Estatística

(ou ‘Quando a fase existencial da Isa vai passar?’)

(resposta ao título alternativo indefinida, beijos)

 

Eu tava no ônibus, né, já percebi que esses meus momentos existenciais são sempre em ônibus ou no meu quarto, até nisso sou extremamente sistemática. Enfim, estava chovendo, claro. E eu estava ouvindo Beatles, lógico, eu sempre viajo ouvindo Beatles. Aí eu olhei em volta e vi várias pessoas, inclusive algumas que eu conhecia, mas com as quais eu não queria falar. Sem motivo, às vezes eu acordo assim mesmo.  Às vezes não, mas esse é um daqueles dias que você só sai de casa por algum motivo muito especial (leia-se ele. Vamos lá, já não é segredo pra ninguém que tudo que eu faço desde respirar até apontar um lápis é por causa dele), e, na despedida do tal motivo, já se vê louca pra voltar pra casa e passar the whole day (anti-)socializando feliz por aí.

Mãs, tava um trânsito da porra. E tinha tanta gente, que, bom, eu praticamente não tinha escolha nenhuma a não ser entrar em um dos meus momentos-interrogações. A pergunta da vez era Quanto.

Olhei para cada uma das pessoas em volta, no ônibus e fora dele, e me pus a imaginar, não só por eles como por mim mesma ..

Quantas pessoas estariam melhor sem você, e quantas nunca estariam tão bem? Quantas tentam a todo custo seguir a vida sem você, e quantas não poderiam viver sem? Quantas virariam a cara ao te ver na rua, e quantas desceriam de um ônibus só para andar ao seu lado? Quantas disfarçam ódio, quantas disfarçam amor? Quantas te acusam pelas suas costas, quantas te defendem até a morte? Quantas preferiam que você não tivesse vindo, quantas ficam realmente felizes com a sua chegada? Quantas te veriam chorar e passariam batidas, quantas secariam suas lágrimas? Quantas te acham louca, quantas fariam loucuras por você? Quantas te dizem palavras vazias, quantas são totalmente sinceras?

 

Ao longo da sua vida, várias pessoas te dirão que você pode lhes dizer tudo, mas

 

com quantas você realmente pode contar?

Reflitoa.

 

 

Tem dias que eu acordo com lágrimas à postos, que apenas pouquíssimas respostas às centenas de interrogações conseguem evitar.

Libra

Acho necessário.

Mas isso realmente é muito eu, achar necessário tudo em que acredito. O que não deve ser muito grave, pois eu nunca fui de acreditar em muitas coisas mesmo. Porém, dentre essas poucas, há uma que me vem fazendo pensar muito recentemente. Voltaire iniciou o positivismo por dizer que tudo era para o melhor no melhor dos mundos, da mesma forma que um cara que-eu-nao-sei-escrever-o-nome iniciou o negativismopor dizer que tudo era para o pior no pior dos mundos.

Tenho certeza que não fui a primeira e que definitivamente não serei a última a considerar que tudo possa ser para o melhor no pior dos mundos, e vice-versa.

Acho realmente necessária essa balança, ou melhor, não a balança em si, mas o fato de acreditar nela. É muita ilusão acreditar no positivismo por excelência, e é deprimente, nada saudável e obrigatoriamente falso acreditar no negativismo absoluto.

Todo mundo já teve bons momentos, e outros ruins.

Por escolha própria, acredito que depois de cada dia de chuva aparece o sol, que cada flor que morre logo é substituída, que a cada perda se ganha algo, que pra cada lágrima existe um sorriso, que pra cada doença há uma época de prosperidade, que pra cada decepção há um ombro amigo, pra cada frio um calor, pra cada amargo um doce, pra cada solidão uma pessoa, pra cada rompimento um novo amor.

Porém aceito cada chuva, cada flor que morre, cada perda, cada lágrima, cada doença, cada decepção, cada frio, cada amargo, cada solidão cada rompimento, sabendo sempre que eles têm tendência a voltar.

Pois há um certo tempo que fui influenciada a acreditar num final feliz. Culpa sua, deixo claro. Desde que você apareceu tenho essa irremediável certeza tão Bob Marley de que every little thing is gonna be alright. Posso estar deixando meio desregulada a tal balança, mas o que eu posso fazer?

 

É tudo por você.

Minhas irmãs, minhas meninas

(e alguns irmãos e meninos também)

 

Percebo o quão idiota é escrever para pessoas que, em sua maioria, não conhecem e, se depender de mim, nunca conhecerão esse espaço paralelo e escondido.

Mas elas são tudo pra mim. Fico vendo alguns males que nos infectaram recentemente, principalmente esse ano, dentre elas Camilla, Elena e coisas du genre (e é ótimo poder citar nomes aqui, cara) mas a essência meio que não se perde nunca. A essência, o mato, as OVELHAS COLORIDAS. Caramba, eu vou contar dessas tosquices pros meus netos, gente. Como a gente passava almoços inteiros estipulando cores, historinhas e árvores genealógicas batutas. Como vocês me acolheram, alimentaram e me deixaram quentinha e abrigada :) durante todo esse curto tempo. Como cada uma de vocês entrou no meu pensamento, no meu coração, em cada uma das minhas veias, se apossaram, me prenderam me dando a maior liberdade da terra. Vocês dividiram cada um dos momentos que eu julgo importante, vocês se tornaram móveis da minha casa, canetas do meu estojo, páginas da minha agenda, fotos do meu orkut, as músicas do meu ipod, até os hematomas do meu corpo! Eu lembro do momento que eu conheci cada uma de vocês, começando pela Mari lá no jardim de infância do Suíço, passando pela Ana na primeira série, também no suíço. Ainda lá, lembro com detalhes do dia que conheci a Madá e a Yas, numa festinha de aniversário muito tosca da JÚLIA. Lembro da minha primeira conversa por GUNBOUND com a Carmen até o dia de conhecê-la no meu primeiro dia de “aula”, aquele experimental, na 5e de vocês. Lembro de fuxicar o orkut e aquele blog muito tosquinho da Sophie, com aquela foto dela com cara de mal-humorada num ônibus, até ver a mesma cara de mal-humorada no meu primeiro dia oficial, aquele da 4e, ainda na entrada. Lembro do primeiro ‘Oi Isa’, muito simpatiquinho da garota branca de óculos verdes, que poucos dias depois se tornaria a minha Blanche entrucalhada e, ainda depois, minha Blanche futura diretora de cinema de sucesso. Lembro de fingir entender o que a Juliette tava falando quando foi se apresentar pra mim, e de como eu comecei a entender melhor através dos meses, e a responder tão rápido quanto ela própria, ficando muito muito feliz ao ver que ela realmente entendia o que eu tava falando. Lembro de ensinar escravos de jó pra Ila e não entender porque todo mundo brigava tanto com ela. Lembro do Pedro me emprestando dois reais no meu aniversário, sem nem acreditar que era mesmo meu aniversário, e depois rindo horrores ao descobrir que era verdade. Lembro de trombar com o Marco no CDI, e abraçar o Alexandre naquele lugar perto do banheiro da cour verte. Lembro do Miguel pré-fase-punk me divertindo nas aulas do Miguel (professor) e falando de Maroon 5. Lembro de começar a falar com o Tito em Minas, e descobrir que ele não era o garoto insuportável que eu pensei que ele fosse.

 

Lembro de como cada um cresceu, se uniu, se separou, se mudou, ou apenas mudou mesmo. As brigas foram muitas, mas minha TPM confirma que eu realmente não poderia ter pedido família melhor.

And I love them, no estilo mais Beatles possível.

Analógico

No marasmo de uma terça-feira sedentária das férias, me deparei com um dos meus maiores inimigos. Aquela gaiola abstrata dos meus pensamentos que na mínima chance se apossa de todo o meu ser, me deixando inoperante por várias horas, só pensando, remoendo, repensando. Ele aparece sem avisar, nas noites de tempestade que você tenta dormir, na monotonia de uma tarde fria, numa aula enfadonha. Qualquer situação é válida.

Me vendo presa e percebendo que ficaria naquela gaiolinha maléfica por bastante tempo, comecei a avaliar minha vida nos últimos três anos e pouco; cada fracasso, cada vitória, cada amor que se provou digno ou não. Foram tantas transições.

Eu me lembro do meu primeiro dia no Lycée, quando ingenuamente conheci as pessoas que com o passar do tempo se tornariam minha família, a verdadeira, a que eu escolhi. As pessoas com as quais eu ainda teria muitas brigas, mas feriria o meu orgulho mil e uma vezes para não perdê-las. As pessoas que ainda me fariam derrubar milhões de lágrimas, mas me proporcionariam infinitos sorrisos. As pessoas que me derrubariam, mas me traríam de volta dos poços mais fundos que eu pudesse me encontrar.

O tempo passou e definiu cada uma dessas pessoas na minha vida. Me deu paixões, por pessoas, por coisas, por atos. Por escrever. Me deu alguns ódios e desentendimentos que, espero eu, me fizeram amadurecer.

O tempo me fez cometer erros, alguns graves, me ensinou a dar mais importância àquelas pessoas que estariam sempre do meu lado, e a operar um por um os tumores da minha vida.

O tempo me fez percorrer caminhos errôneos, mas que um dia se tornariam certos por aprendizado.

O tempo cicatrizou cada uma das minhas feridas, mas sempre feriu à faca outro lugar pra compensar o que se acertava.

O tempo foi deixando meus olhos míopes, mas meus pensamentos mais claros; me ensinou a discernir o certo do errado, mesmo que não tenha me ensinado quais eram os certos certos, os certos errados, os errados certos e os errados realmente errados.

O tempo foi me dando autonomia pra administrar como eu quisesse meus sentimentos, meus pensamentos, e até meu próprio tempo, mas me criou limitações, físicas ou mentais.

O tempo destruiu cada uma das minhas ilusões mais preciosas, mas me ensinou a ver o colorido em meio à realidade cinza em putrefação, que no meio de todas as suas imperfeições, tinha a vantagem de, ao menos, ser real.

O tempo me apresentou as artes; escrever, atuar, me deu a imaginação necessária para executá-las, mas me tirou o talento pra desenhar e, muitas vezes, pra expressar os sentimentos mais importantes, que me sufocavam à medida que cresciam na jaula criada por tal incapacidade.

O tempo me apaixonou por homens errados, mas me deu sempre a certeza de que o da vez era o certo e a força mínima necessária para passar ao próximo com a mesma esperança inabalável, da eternidade, da pureza e de tudo aquilo que com o passar dos anos criei tendência a procurar nos mais volúveis braços, até chegar aos mais seguros, os de hoje, os que vão me abraçar pra sempre se depender de mim.

O tempo .. relógio analógico que com seu tiquetaquear irritante e inesgotável tudo muda, tudo cria, impossível de ser parado ou impedido até que se quebre de vez, soterrado por seus próprios filhos e netos, seus segundos, seus minutos, seus dias, suas semanas, seus meses, seus anos, que são como eva para adão, o ser criado de sua costela que levou-lhe à destruição.

 

Tique.

 

 

Taque.

Vapor

(ou ‘obrigada pelo almoço’, ou até ’j'espère que le bonheur puisse faire des grands artistes, sinon je suis foutue’) - essa obra tem muitos títulos alternativos.

 

Postergamos durante vários minutos - ou horas, eu realmente não sei dizer - qualquer passo, qualquer movimento longo ou brusco que quebrasse o ritmo lento que se estabelecera não apenas em nós, mas em todo o quarto. Tive medo que esse ritmo, ao sair do cômodo, se quebrasse, trouxesse de volta a realidade, as coisas mundanas, a correria. Arriscamos, por fim.

Sem quebras. Percebi como meu medo fora ilógico, sem fundamentos. Não era o quarto que estabelecia aquele ritmo, aquela avidez rústica que de forma tão única e paradoxal coexistia perfeitamente com a preguiça; era você. Não, mais que isso, éramos nós - nossa união.

Levantamos do que tinham sido horas de sonolência, prazer. Paz. Eu diria que se passaram meses enquanto permanecemos imperturbáveis na sua cama, se não fosse a lembrança em permanência do tempo que insistia em nos aguardar com impaciência ao redor da zona de proteção imaginária que criáramos, acompanhado por meus sentidos e qualquer vestígio de responsabilidade, de juízo que já houvera em meu ser.

Não levamos ao próximo cômodo nada além de nós mesmos. Me diverti ao perceber quão metafórico era aquilo tudo. Nossas roupas, esquecidas no chão do outro quarto, não eram mais meras peças de vestuário; elas representavam tudo que era rotina, tudo que era exigido e desagradava, tudo que era limitado ou limitava e estava sendo deixado para trás, em outra dimensão, outro universo. Naquele momento nada disso nos alcançava.

Eu brincava com a água quente que corria pelos seus ombros*, ignorando qualquer frio ou pudor que pudessem assombrar meu corpo descoberto. Meu sorriso aumentava, minha pressão descia, a luz me cegava e tudo que eu via era embaçado, sem contorno, lindo! Absolutamente belo. A água corria pelas minhas costas enquanto você me beijava e eu tentava memorizar cada segundo, dar total atenção a cada sensação, a cada beijo, ao arrepio na pele gerado pelo abraço da água quente com o clima frio, dos nossos corpos nus. Nós estremecíamos, entorpecíamos, delirávamos, apaixonávamos e sentíamos todas as coisas mais perfeitas capazes de serem conjugadas em pretérito imperfeito e, não obstante, sem serem esquecidas no passado. Minha mente viajava, formando mais metáforas, sensível a todos os movimentos, e ao modo como estes se tornavam gradativamente mais lentos, e me encantando com toda aquela idéia de água* que, como eu sabia bem e lembrava com carinho, era o símbolo da pureza por excelência*. Tudo se encaixava, se correspondia e era para o melhor no pior dos mundos, numa fusão de Baudelaire e Voltaire meio às avessas e que, tenho certeza, nenhum dos dois nunca sonhara possível nem em seus sonhos mais loucos, seus delírios mais intensos.

Ao deixar o chuveiro, com o torpor ainda fresco no corpo, o antigo mundo tentava nos acordar, lembrar-nos de sua irremediável existência. Inúmeras chamadas perdidas no celular, pessoas gritando palavras ao telefone, pedindo favores, cobrando coisas. Não o conseguiram por inteiro, porém. O ritmo agilizado típico acabou voltando, obviamente. Era inevitável, e nada melhor para isso do que a realidade dura de uma segunda-feira. Mas as imagens, as lembranças, as sensações .. continuavam só nossas, e as guardávamos como os bens inestimáveis que eram, fora do alcance de outros olhos, de outras mãos.

Guardo para sempre na memória aquele lapso de tempo e espaço, a batida do seu coração a fazer dueto com o meu, suas mão tocando os meus ombros nus, para depois descer aos braços e continuar um caminho improvisado e sem fim definido pelo resto do meu corpo; a ternura e a importância de cada respiração, o barulho da água apenas quebrado pela sua voz grave, reconfortante; a certeza  da autenticidade daquelas palavras, dos sentimentos, a necessidade voraz, o amor enlouquecido, a urgência em ampliar cada segundo até que o carrasco da realidade transportado por Renault me levasse pra casa ..

Mas levo comigo as imagens nebulosas de vapor.

 

*nota da autora: essas duas/duas e meia/três passagens marcadas por asteriscos deram origem à todo o texto, que foi editado exatas 7 vezes, e que teve palavras acrescentadas em cada uma das edições.

My Hero’s Iris

Iris - Goo Goo DollsMy Hero

And I give up forever to touch you
‘Cause I know that you feel me somehow
You’re the closest to heaven that I’ll ever be
And I don’t want to go home right now
And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
And sooner or later it’s over
I just don’t want to miss you tonight

And I don’t want the world to see me
‘Cause I don’t think they’d understand
When everything’s made to be broken
I just want you to know who I am

And you can’t fight the tears that ain’t coming
Or the moment of truth in your lies
When everything feels like the movies
Yeah you bleed just to know you’re alive

And I don’t want the world to see me
‘Cause I don’t think they’d understand
When everything’s made to be broken
I just want you to know who I am
And I don’t want the world to see me
‘Cause I don’t think they’d understand
When everything’s made to be broken
I just want you to know who I am

My Hero - Foo Fighters

Too alarming now to talk about
Take your pictures down and shake it out
Truth or consequence, say it aloud
Use that evidence, race it around

There goes my hero
Watch him as he goes
There goes my hero
He’s ordinary

Don’t the best of them bleed it out
While the rest of them peter out
Truth or consequence, say it aloud
Use that evidence, race it around

There goes my hero
Watch him as he goes
There goes my hero
He’s ordinary

Kudos my hero leaving all the best
You know my hero, the one that’s on

There goes my hero
Watch him as he goes
There goes my hero
He’s ordinary

 

Por essas terras em que vivemos passaram grandes gênios, pessoas brilhantes, pessoas talentosas, pessoas ricas, pessoas influentes, que por causa de tudo isso ficaram famosas. São os ídolos de muitas pessoas, e alguns, se voltassem, fariam grande diferença no mundo, pois morreram muito jovens e cheios de potencial.

Mesmo sabendo de tudo isso, se eu pudesse trazer qualquer pessoa de volta, sem nem piscar os olhos eu traria você; mesmo sendo velho, mesmo que voce nao ficasse muito mais tempo do que te permitiu a doença, mesmo que voce nao influenciasse em nada o mundo. Eu trocaria tudo por mais um ano, até mesmo um mês ao seu lado.

 

Meu amor e respeito por você serão eternos ..

Você não deu a mesma sorte.

Funeral for a friend (ou a urgência em estar vivo)

Hoje eu fui num enterro. Foi um dia engraçado.

Na escola, eu esqueci de levar autorização escrita para sair mais cedo para chegar a tempo do funeral, às 2 horas, em Botafogo, e minha diretora me explicou como eu fugir da escola “sem o conhecimento dela” ou dos inspetores que guardavam a saída.

Logo, “fugi”, com mais outras três amigas (que por serem pessoas normais tinham suas devidas autorizações escritas), passei na casa de uma amiga, troquei de roupa e fui.

Falemos um pouco sobre a falecida. Marcia Schmidt tinha pouco menos de 40 anos, acho, e nesse sábado à noite se matou com gaz em sua residência no Leme, enquanto sua filha e as coleguinhas se matavam de maneira mais lenta e indireta em uma festa inconseqüente em Laranjeiras. Marcia deixou uma filha semi-desequilibrada, um ex marido otimista, porém melancólico, uma mãe agora desesperada e um irmão que a amava muito. Ela, como todas as pessoas na Terra, tinha seus problemas, claro. Os dela talvez piores que o da maioria, de fato.

No seu enterro, eu, como a pessoa fraca que sou, fiquei chocada. Para mim, nada daquilo parecia verdadeiro. No caixão, aquela mulher tão animada que eu já tinha visto uma ou duas vezes estava deitada, imóvel, inteiramente maquiada e reluzente ..

Como uma boneca.

Sua filha chorava, sua mãe gritava e se descabelava, seu irmão desmaiava, por algum motivo que me parecia ilógico, ela não levantava nunca. Eu olhava toda aquela cena desesperada e tudo que eu podia me perguntar era como aquela mulherconseguia ouvir tanta dor no ar e não se levantar, ou ao menos se mexer, para dar qualquer gesto de consolo que fosse para seus entes queridos.

O enterro passou, e eu continuei lá estática, sem entender. Minhas amigas começaram a ficar preocupadas com minha cara chocada, me mandaram beber água, respirar fundo, e outras coisas às quais não dei atenção; eu estava catatônica. Acabada a missa, levamos o caixão ao seu devido buraco. Porque não há outra palavra pra descrever o lugar onde foi colocado; aquilo era, simplesmente, um buraco na parede.

Flores foram jogadas e, uma vez fechado o buraco, as pessoas começaram a voltar para prestar uma última homenagem à família agora inconsolável e irem para suas respectivas casas. Ficamos para trás apenas eu, minha amiga Nathalie, e meu suposto ‘um-dos-meus-melhores-amigos-no-mundo’ Pedro, com quem eu briguei essa semana por um motivo estúpido.

A ficha caiu.

Junto com lágrimas desesperadas minhas. Nessa hora, enquanto eu me acabava em lágrimas de tristeza - por imaginar que poderia ser minha mãe - e de raiva - por não entender como essa mulher deixou a família dela de forma tão repentina e cruel - um peito tomou todo meu campo de visão e fui tomada num abraço. Um abraço meio tímido no começo, mas que aumentou de intensidade junto com as minhas lágrimas. Naquele momento, por mais brega que isso possa parecer, nem eu nem o Pedro nos importamos, ou sequer lembramos, da nossa briga; ela era irrelevante na escala atual.

Agora, vocês talvez estejam se perguntando, será que eu e o Pedro continuamos brigados?

Provavelmente sim. Mas isso não importa. Porque hoje eu percebi que não importa como a situação esteja, não importa meu vazio existencial de merda ou minhas pequenas adolescências; eu tenho uma mãe, um pai, um namorado, amigos que se importam comigo e realmente têm medo que eu desmaie num cemitério, tenho dinheiro e uma boa escola.

Não interessa se minha mãe é meio louca, meu pai muito chato e irritante, (jaz aqui o espaço no qual eu deveria fazer críticas ao meu namorado, mas não consegui pensar em nada), amigos inconseqüentes ou estranhos, se meu dinheiro nem sempre dá pra tudo ou se minha escola algumas vezes me tira do sério.

Eu decidi, ou melhor, eu notei que estou viva, poxa! E tenho urgência em estar, como já dizia Dead Fish.

E acaba-se o vazio existencial, de uma vez por todas.

E apesar de ainda me parecer que funerais são coisas muito injustas e tristes, tenho que aceitar, na minha cabecinha pequena e sensível, que eles serão necessários e que, até o dia do meu próprio, eu ainda terei muitos choques catatônicos seguidos por lágrimas desesperadas.

Eu só espero sempre ter um peito pra me acolher.